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Preconceitos2018-09-13T11:37:51+00:00
Em primeiro lugar, não há lugar no mundo onde não exista pobreza. Em Portugal, havendo sérios problemas sociais, há também um investimento coletivo de cariz público e solidário em campo, em permanência. Mas importa aqui esclarecer que, quanto à capacidade da rede de apoios sociais instalada em Portugal e quanto à população que dele desfruta regularmente, em nada será perturbada por um apoio adicional, seja ele a novos desempregados, a afetados por algum fenómeno natural ou a refugiados.

O apoio aos mais pobres é assegurado, para além da Segurança social, com as várias prestações sociais, por uma rede de instituições particulares de solidariedade social, espalhadas pelo país e representadas pela CNIS na Plataforma de Apoio aos Refugiados, e por instituições religiosas como a Cáritas, os membros da Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal ou a Comunidade Islâmica, também membros da PAR. Acresce que, no que toca às pessoas sem-abrigo, duas das principais organizações que apoiam estas pessoas, como a Comunidade Vida e Paz ou a CAIS, estão também presentes na Plataforma. Assim é evidente que, não só há muito trabalho já feito no apoio às pessoas mais pobres em Portugal, como este vai continuar, sem ser prejudicado pelo acolhimento aos refugiados. São estas mesmas organizações, sempre disponíveis para servir os que mais precisam, que estarão disponíveis para uns e para outros. Também importa que quem faz esta pergunta, caso não esteja empenhado no apoio concreto aos mais pobres, se mobilize para fazer alguma coisa por eles em Portugal, pois, desta forma, seremos mais a darmos resposta.

Haverá sempre muito trabalho a fazer, quer pelos pobres em Portugal, quer pelos refugiados em qualquer parte do mundo. Felizmente o que temos encontrado por estes dias é que quem ajuda os mais pobres em Portugal, há muito tempo, e são muitos, foram os primeiros a voluntariar-se para ajudar também os que precisam hoje de refúgio por o seu país estar em ruínas.

Os refugiados encontram-se em situação de risco elevado e/ou privação de liberdade e total insegurança. O apoio aos refugiados não retira qualquer recurso para o apoio aos mais pobres entre nós. A União Europeia mobilizará recursos adicionais para os países que acolhem refugiados. Quem ajuda os sem-abrigo e os pobres em Portugal, em primeiro lugar, somos todos nós que pagamos impostos e que, dessa forma, garantimos recursos financeiros para a ação social, mas também são as mesmas organizações que estão a organizar o acolhimento dos refugiados.

É importante também recordarmos que ser refugiado não é o mesmo que ser pobre. Ambas são situações de extrema vulnerabilidade, porém um refugiado tem a necessidade de auxílio urgente e estruturado para poder ter a possibilidade de sobrevivência e proteção.
Por outro lado, os refugiados, uma vez em Portugal e integrados contribuirão para o sistema nacional como qualquer português.
Por todo o mundo, há casos de refugiados que mudaram a civilização. Em Portugal um exemplo disso é Calouste Gulbenkian, nascido em Üsküdar, tradicionalmente vista como o berço da civilização Arménia. Em 1896, nem as boas relações com a corte otomana foram suficientes para proteger a família dos ataques anti-arménios e foram obrigados a fugir para o Egipto e depois Inglaterra. Em 1942, o colecionador, filantropo e diplomata chegaria a Lisboa por causa da Segunda Guerra, cidade onde passou os últimos anos da sua vida e onde estabeleceu no seu testamento que seria construída a sede de uma fundação internacional com o seu nome, em benefício de toda a humanidade.

Albert Einstein, o alemão galardoado com o Nobel da Física em 1921, desenvolveu a Teoria da Relatividade, um dos dois pilares da Física moderna. Foi para os Estados Unidos, onde acabou por ficar refugiado quando Hitler subiu ao poder. Foi um dos fundadores da International Rescue Committee (https://www.rescue.org/).

Também Sigmung Freud, o pai da Psicanálise, nasceu na Áustria numa família judia e acabou por ter de fugir para Londres em 1938.

Madeleine Albright é outra refugiada famosa. Nasceu em Praga em 1937 e fugiu do país por causa da Segunda Guerra Mundial. Antiga secretária de estado norte-americana, a primeira mulher a conseguir o cargo, diz agora que o mundo está a fazer pouco pelos atuais refugiados. Ainda criança Albright fugiu para Inglaterra e só mais tarde se instalaria nos Estados Unidos.

Tenzin Gyatso é mais conhecido para o mundo como o 14.º Dalai Lama, líder espiritual do budismo tibetano. Em 1959, foi obrigado a abandonar o Tibete por causa da invasão chinesa e fugiu para a Índia, onde ainda hoje lidera o governo tibetano no exílio.

Marlene Dietrich, a atriz e cantora nascida na Alemanha, fugiu para os Estados Unidos onde se manifestava publicamente contra Hitler e cantava para os soldados americanos. A irmã foi enviada para um campo de concentração numa tentativa de fazer calar Marlene, mas os nazis não foram bem-sucedidos e a carreira da já norte-americana transformou-a numa lenda.

E ainda no mundo na música, Gilberto Gil e Caetano Veloso foram obrigados a fugir do Brasil por causa da ditadura militar. Os dois músicos foram presos e acabaram por procurar refúgio em Londres.

Milan Kundera, Miriam Makeba, Frederic Chopin, Isabel Allende, Bela Bartok… são apenas mais alguns exemplos de refugiados.

Recomendamos a consulta – https://www.tsf.pt/sociedade/interior/refugiados-4860652.html

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A chegada de refugiados muçulmanos – ou de qualquer outra convicção religiosa – não deve constituir um problema e deve ser enquadrada nos valores europeus de respeito pelos direitos humanos e pela diversidade. O acolhimento de refugiados não pode ser condicionado pela religião. Acima dessa pertença há a obrigação humanitária de quem acolhe. A UE tem – e orgulha-se disso – o princípio da liberdade religiosa e defende o diálogo inter-religioso e o respeito mútuo.

A União Europeia tem cerca de 18 a 19 milhões de muçulmanos (3,8%). A Europa, no seu todo, excluindo a Turquia, tem 44 milhões (6%). Qualquer que seja a convicção religiosa, todos os cidadãos europeus e estrangeiros estão obrigados a respeitar as leis e o Estado de Direito. A chegada de refugiados muçulmanos – ou de qualquer outra convicção religiosa – não deve constituir um problema e deve ser enquadrada nos valores europeus de respeito pelos direitos humanos e pela diversidade. Muitas vezes, a nossa perceção está muito longe da realidade: em França, por exemplo, a perceção é de que a população muçulmana represente 31% do total do país quando na verdade representa apenas 8%; na Bélgica a mesma perceção é de 29%, mas no país apenas 6% de população é muçulmana; e na Grã-Bretanha os cidadãos creem que há uma população muçulmana de 21%, quando esta é de apenas 5%.

Quanto mais diversa uma sociedade é, mais inovadora e criativa será.

Segundo o Relatório da Liberdade Religiosa no Mundo (jun 2014 a jun 2016) (https://www.acn.org.br/wp-content/uploads/attachments/SumarioExecutivo.pdf), durante este período em análise surgiu um novo fenómeno de violência com motivação religiosa, que pode ser descrita como hiperextremismo islamita, um processo de radicalização intensificada, sem precedentes na sua expressão violenta.

As suas características são:

  • a) Crença extremista e um sistema radical de lei e governo;
  • b) Tentativas sistemáticas de aniquilar ou afastar todos os grupos que não concordem com a sua perspetiva, incluindo correligionários: moderados e aqueles com diferentes tradições;
  • c) Tratamento cruel das vítimas;
  • d) Uso das redes sociais mais recentes, principalmente para recrutar seguidores e intimidar os opositores através da exibição de violência extrema;
  • e) Impacto global, tornado possível através de grupos extremistas filiados e de redes de apoio com bons recursos.

Este novo fenómeno tem tido um impacto contaminante na liberdade religiosa em todo o mundo:

  • a) Em alguns países do Médio Oriente, incluindo a Síria e o Iraque, este híper-extremismo está a tentar eliminar todas as formas de diversidade religiosa e está a ameaçar fazê-lo igualmente em países da África e da Ásia Meridional. A intenção é substituir o pluralismo por uma monocultura religiosa;
  • b) O extremismo e o híper-extremismo islamita, observados em países que incluem o Afeganistão, a Somália e a Síria, tem sido um fator-chave na repentina explosão de refugiados que, de acordo com os números das Nações Unidas para o ano de 2015, aumentou 5,8 milhões, chegando a um novo número máximo de 65,3 milhões.

Os refugiados que fogem destas regiões são as primeiras vítimas deste tipo de violência e perseguição. Estes são as principais vítimas do fundamentalismo islâmico e da sua crueldade.

A Síria antes da guerra albergava um conjunto de grupos diferentes: árabes, arménios, cristãos, curdos, drusos, ismaelitas e beduínos que conviviam de forma pacífica e com bastante tolerância relativamente à diversidade cultural e religiosa.

    • GRUPOS ÉTNICOS

Os árabes sírios, juntamente com cerca de 600 mil árabes palestinos, representam cerca de 74% da população, o maior grupo étnico. O segundo maior grupo étnico na Síria são os curdos. Eles constituem cerca de 9% da população, ou cerca de 2 milhões de pessoas. A maioria dos curdos residem na região nordeste e a maioria fala a variante Curmânji da língua curda. O país também é o lar de vários outros grupos étnicos, principalmente os turcomanos (cerca de 500 000–1 000 000), circassianos (cerca de 100 mil), gregos e armênios (aproximadamente 100 mil). A nação árabe também abriga uma população substancial de judeus, com grandes comunidades em Damasco, Alepo e Qamishii.

    • RELIGIÃO

Os árabes sunitas representavam 59–60% da população, a maioria dos curdos (9%) e turcomanos (3%) é também sunita, enquanto 13% são xiitas (alauítas, duodecimanos e ismaelitas combinados), 10% são cristãos e 3% drusos. A população drusa é estimada em cerca de 500 mil e vive principalmente em Jabal al-Druze. Os yazidis são curdos que professam uma religião sincretizando crenças tradicionais, mitradismo, cristianismo e islamismo sufita. A família do presidente Bashar al-Assad é alauíta, grupo que domina o governo e ocupa os principais cargos militares.
Os cristãos (2,5 milhões de pessoas) estão divididos em várias denominações. A Igreja Ortodoxa Grega de Antioquia da Calcedônia compõem 35,7% da população cristã do país; os católicos (seguidores da Igreja Greco-Católica Melquita, Igreja Católica Arménia, Igreja Católica Siríaca, Igreja Maronita, Igreja Católica Caldeia e do catolicismo latino) compõem 26,2%; a Igreja Apostólica Armênia conta com 10,9%; a Igreja Ortodoxa Síria compõem 22,4%; a Igreja Assíria do Oriente e várias outras denominações cristãs menores representam o restante. Muitos dos sírios cristãos pertencem a uma classe socioeconómica alta dentro da sociedade local. (https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADria#Religi%C3%A3o)

Composição etnorreligiosa do território sírio:

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“Os refugiados não são pobres. Até têm smartphones!” Um dos argumentos de descredibilização usado na crise dos refugiados, assenta em bens materiais usados por refugiados. É fácil encontrar um vídeo ou uma fotografia a circular na net, onde migrantes usam smartphones.

Se a brigada anti-imigração começou por defender que os refugiados vinham para a Europa em busca dos benefícios sociais, agora dizem que, por terem um smartphone, não são pobres e não merecem ajuda.

Ora, a Síria não é um país rico. No entanto, também não é um país pobre. Se em Portugal existem 15 telemóveis por cada 10 pessoas, de acordo com o CIA World Fact Book, em 2014, a relação telemóveis/pessoas era de 8,7 telemóveis por cada 10 pessoas. No Egipto esta relação é de 11 por cada 10. A revolução árabe dinamizou-se graças aos telemóveis e às redes sociais. Então porque é estranho que os refugiados tenham telemóveis? Um smartphone é essencial para quem vai de férias: pode aceder a mapas, informação de restaurantes e hotéis, pode comunicar com outras pessoas e pedir dicas de sítios onde ir. E um refugiado? Pode aceder a mapas, informação de comboios e centros de apoio, pode comunicar com família e amigos que ainda estão na terra natal ou encontrar pessoas que atravessaram o Mediterrâneo e se perderam.

Um smartphone é essencial no dia-a-dia de pessoas que não fogem de uma guerra. E é vital para quem foge dela. Não esquecendo o facto de que, mesmo não sendo o país mais rico do mundo, a facilidade em adquirir um smartphone é altíssima. Basta ver os preços. Mesmo o equipamento mais barato com acesso a mapas, redes sociais e internet pode ser comprado por 50€ em Portugal. E tentar comprar um modelo que não seja smartphone é uma tarefa muito mais complicada.

Assim sendo, a resposta à pergunta “devemos estar surpreendidos pela quantidade de smartphones dos refugiados?” será “não devemos, porque este meio de comunicação é vital para quem foge de uma guerra”.

O valor de um smartphone, atualmente, é reduzido e, recordemo-nos de que, muitos dos refugiados exerciam atividades enquanto professores, engenheiros, médicos, ou outras que lhes permitiam comprar equipamentos como este. Em 2014, 9 em cada 10 sírios tinha um telemóvel. É importante ainda referir a relevância que estes dispositivos tiveram na Revolução Árabe, ao permitir reportar e transmitir informação que rapidamente se propagou pela internet.

Um smartphone é um instrumento valioso para quem está a fugir de uma guerra: pode aceder a informação vital, como a meteorologia, os mapas, horários de transportes e centros de apoio, pode comunicar com família e amigos que ainda estão na terra-natal ou encontrar pessoas que atravessaram o Mediterrâneo e se perderam, entre muitas outras vantagens. O telemóvel é um meio de acesso ao email, a notícias, a serviços de tradução, e permite até guardar as fotografias e recordações dos que lhe são queridos.

Se um smartphone é essencial no dia-a-dia de pessoas que não estão a fugir de uma guerra, pode ser vital para quem foge dela.

(Adaptado do artigo de José Maria Barcia na Revista Refugiados)

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